Voo Livre, um brinquedo só de marmanjos?

Dário Régoli

 

Ok, ok, antes que chovam reclamações feministas, vamos esclarecer esse título. É fato que hoje o voo livre, em especial o parapente, tem um grande número de mulheres praticantes. E elas voam tão bem quanto os marmanjos.

(imagem da Pedra Grande atibaia)

Pronto, agora que foi resolvida a primeira polêmica, vamos ao verdadeiro sentido do título deste artigo. Logo que comecei a voar de parapente havia um ditado que dizia assim: “no voo livre, a primeira coisa que o piloto ganha é altura e a primeira que perde é a namorada”. Pura maldade. Quer dizer… mais ou menos. Naquela época as mulheres eram uma grata, mas rara exceção no esporte. Enquanto os corajosos pilotos se divertiam atirando-se do precipício, as pobres mulheres, namoradas, amantes e ficantes eram obrigadas a passar horas sob o sol escaldante nas rampas de decolagem. Convenhamos que ficar sentada em uma pedra tomando sol e vento na cara não me parece ser o melhor tratamento para pele e cabelo. Isso sem contar que depois ainda tinham que aguentar o interminável papo sobre as espetaculares performances aéreas do mancebo. Conversa que só voador gosta de ouvir.

Resultado: a relação homem x mulher, baseada no clássico exemplo de egocentrismo e egoísmo masculino não durava mais que duas incursões à montanha.

Criou-se a partir daí uma disputa ferrenha. O voo livre se transformou em uma espécie de rival dos relacionamentos, maior até do que aquela amiga invejosa, a secretária gostosa ou os sites de relacionamentos (que nós nunca entramos). Elas, cansadas de serem trocadas pelo céu azul nos finais de semana, sentenciaram: “ou eu, ou o voo”. Invariavelmente acabavam voltando pra casa sozinhas.

Mas as coisas estão mudando. Em parte porque muitas mulheres aderiram ao esporte, seja para acompanhar o parceiro, seja por vontade própria. Em outra medida, porque simplesmente desistiram da queda de braço com o voo livre, uma luta tremendamente desigual. Elas simplesmente desencanaram.

Homens são bichos estranhos. Precisam ter um brinquedo. Sempre. O carrinho na infância, a bike na adolescência, as manias excêntricas da fase adulta. 

Entendam, mulheres, o voo livre é apenas um exemplo, pois poderia ser o jogo de futebol, a sinuca, a bike, o bate-papo no boteco. Nós homens não somos evoluídos como vocês. Precisamos de algo que nos complete como eternos imaturos que somos. Padecemos de uma síndrome de Peter Pan que nos persegue desde os primórdios.

Admito que precisamos aprender a dosar nossa necessidade por ‘bobagens’ que sejam desde chutar uma bola até se atirar no precipício em um domingo de sol.

Mas saibam amigas mulheres, namoradas, ficantes…vocês continuam sendo insubstituíveis. Nenhum voo nos dá mais prazer que vocês (em igual medida, talvez). Nós marmanjos, precisamos aprender a dosar nossa taxa de imaturidade e dividir nosso tempo.

Fazemos um apelo a vocês mulheres que tem maridos, namorados ou ficantes que buscam o nirvana em algum brinquedinho de gente grande: tenham paciência conosco. Saibam que não há nada mais chato que um companheiro contrariado porque passou o fim de semana sem suas manias. E nada mais legal do que um parceiro radiante porque pode voltar a ser criança, mesmo com 40 anos nas costas.

Dário Régoli – 47 anos, é jornalista, pratica voo livre há vinte e está em seu terceiro casamento

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